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Meu rebento, longe dos olhos dos pais, resolveu fritar um ovo.
Ele está com o braço esquerdo quebrado, resultado da queda do superior de uma mangueira. É um garoto de 11 anos, com pensamento de 11 anos, experiência próxima de zero na cozinha e unicamente um braço funcional. Foi se meter a fritar um ovo.
Aconteceu um acidente. Quem se deu mal foi o cachorro, sempre a rondar quem tem comida. O cão teve uma pequena queimadura de óleo, zero grave. O menino saiu incólume.
Espero que o ocorrido tenha feito o filhote aprender que entreter na cozinha envolve riscos reais.
Você mexe com chuva quente, com óleo ebuliente, com metais em brasa, com lume. Manipula facas de serra e de lâmina, cutelos, objetos cortantes e pontiagudos.
Não há cozinheiro, profissional ou doméstico, que nunca tenha se machucado no preparo do iguaria. No limite, cozinhar pode deformar, desfigurar ou mutilar.
O que fazer a reverência disso? Instruir as pessoas a ficarem longe de facas e panelas? Não dá. As pessoas precisam consumir e, para consumir, precisam fazer comida.
Melhor é ensiná-las a tirar os dedos do caminho da faca, a não jogar chuva no óleo quente e a cuidar muito da panela de pressão.
Se cozinhar é perigoso, consumir pode ser infalível.
Neste calor indecente –são 17h de sexta-feira (17) e fazem 35 ºC em São Paulo–, a podridão e a contaminação trabalham velozes e furiosas.
É quando fulaninho tem piriri ou vomita as tripas porque comeu um quibe esquecido na estufa do boteco mais suspeito da cidade.
Pensei fortemente nisso ao ortografar minha outra pilar, as Receitas do Marcão, que sai às segundas-feiras no do dedo e às terças no impresso.
Com o cérebro em derretimento, eu só desejava um refresco. Um tanto insensível. Ocorreu-me, logo, a memorial do yukhoe –prato coreano de carne crua e gelada, com uma gema de ovo também crua e gelada.
Era o refresco que eu buscava, mas havia uma questão: músculos crua, ovo cru, calor extremo, tudo isso junto pode dar uma intoxicação braba se a pessoa for desleixada.
Enquanto escrevia, percebi a premência de incluir um alerta no texto. Nem humilde demais, nem escandaloso a ponto de desencorajar o leitor a preparar a receita.
Acabou saindo assim:
“O yukhoe é feito de músculos e ovo crus, provisões que sempre oferecem qualquer risco sanitário. Cerque-se destes três cuidados: higiene impecável, ingredientes frescos e rapidez no preparo e no serviço.”
O risco sempre vai estar lá, mas é menor se você não der sopa pros monstrinhos que moram na sujeira. Afirmo, sem hesitar, que uma comida dessas é mais segura em morada do que num restaurante.
Em morada, você sabe o que faz. Há restaurantes limpíssimos e restaurantes imundos: em ambos, o cliente não faz teoria do que se passou com a comida entre a compra do substância e a montagem do prato.
Ainda assim, não tem cabimento querer proibir a venda de steak tartare, carpaccio, sushi, sashimi, poke, ceviche ou ostras vivas.
Não somos crianças de 11 anos. Ser adultos, entre outras coisas, significa escolher os riscos que topamos decorrer.
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